Mil Homens

literatura. música. arte digital.

Para que servem as humanidades?


Enquanto escrevo estas palavras – recorrendo à caneta como forma de conferir estabilidade ao que raramente a tem, abrindo assim o campo da semântica – nada em meu redor é estático, nada me aguarda ou me anseia. Desapegado de mim, ocorrendo sem a minha permissão ou influência, há um renovar incessante do tempo; para ele não sou, aliás, mais do que um narciso entre narcisos. É assim que a Terra gira sobre si e sobre o sol; que os mares sobem e descem, carregando consigo um mundo próprio; que as aves migram, esquecendo o que deixaram para trás. São, em suma, os ciclos vitais – os inícios que são fins, os fins que se renovam em inícios, com uma tal subtileza que só contemplando-os se reconhecem realmente como ciclos, e não como o trânsito frenético que o olhar desatento vê. Enquanto as escrevo, por isso, tudo me atravessa e me deixa. Sou sucessivo abandono, mas também sucessiva chegada. Cada movimento que me atinge é um momento de aprendizagem, pois aprendo a receber sem possuir, um ter que não é meu. Aprendo, no fundo, a libertar-me; porque cresci na extravagância da máquina, o modo-de-ser que se apresenta como único possível, como absoluta evolução, como consumo e desgaste, aquisição e despojo. Na verdade, nada é meu – essa é a mais humilde lição que se aprende por entre o viver, nos interstícios da vida ímpia, bárbara, desumana.

No entanto, independentemente do que a vida é nesse por-entre, o que primeiro aprendi como absoluto foi a posse. A vida em termos de uso e eficácia, onde cada mão é ferramenta, cada corpo um meio. O domínio como amor; amar como ter um outro para o próprio prazer, para recusar o silêncio, para esquecer a fragilidade que é inata ao próprio existir consciente. Amar enquanto forma de renúncia, de quem rejeita a sua própria finitude ao exigir obediência, devoção, proteção, segurança. Amar como perder-se noutro corpo, não por ele ser seu igual, mas exatamente por não o ser: por o poder ter. E nessa posse desmedida, treslouca, opressiva, resistir a reconhecer-se como fraco, mortal, insignificante. Amar como violência, então; a decadência da ligação pura entre entidades absolutamente enclausuradas, pela exigência técnica, pelo projetar do pensamento científico que exige sempre um caminho específico, um reduzir do que é confuso, labiríntico, abstruso, ao uniforme, didático, acessível, supérfluo – ao dominável.

Por entre esta projeção humana sobre a tela do mundo, a vida manifesta-se em voos, enchentes, crescimentos e quedas, montes e vales; no espontâneo ressurgir que nunca exatamente parte ou retorna, simplesmente sucede-se, atemporal. Contudo, a exigência humana confronta-a, desafia-a ao questionar se a sucessão não é um caminho, uma direção para um alvo específico. Para onde caminha a vida? pergunta, sôfrego, o organismo mecânico. A resposta é indiferente porque é na pergunta, desde logo, que está o erro, que está a fraqueza do pensar humano, particularmente o de entre nós, herdeiros dos séculos modernos. A vida não caminha, nem sequer entende o caminhar que lhe exigimos; não há alvo, não há sentido, não há trajetória, não há segredo que se desvenda com o tempo. Há – no presente; simplesmente . O que se reflete depois, tudo o que se pensa sobre este , o que se constrói sobre ele, são fantasias onde a validade é transversal a cada uma, tal como a qualquer outra utopia.

Contudo, há algo de extraordinário que se esconde nas sombras destas perguntas: a ser sincero que, anterior a todos os nossos corpos, não há uma qualquer realidade independente, uma forma absoluta que nos origina e encaminha como um pai a uma criança, então quem somos – o que nos faz, o que nos preenche e significa, o que nos cria, os modelos através dos quais pensamos e comunicamos, as virtudes e vícios, o que cada um é para os outros e, intimamente, o que cada um é para si – é o resultado da gestação cultural. E talvez assim se entenda o fascínio (depravado, talvez) que se me desperta, enquanto curioso observador, ao ouvir a cómoda pergunta que se gera comummente perante as humanidades, perante a tradição humanística, verbalizada em “Mas para quê que isso serve?“. É que nenhuma outra pergunta poderia sugerir o distorcer completo que coabita entre nós, quando comparado com o questionar – perante um quadro, um livro, ou qualquer outro registo humano – pela função. De tal forma estamos enredados no tecnicismo, na forma de pensar de um artesão – ele que corretamente o aplica à sua arte, nós que erradamente o aplicamos a tudo o resto – que cada um vê-se a si mesmo como a mão que segura o martelo, desesperados por algo para martelar. A mera funcionalidade a que nos reduzimos, incapacita-nos de pensar fora desse paradigma.

Então, o que nos ensinam as humanidades? Nada de essencial para habitar o mundo técnico e inorgânico, onde o outro é sempre mero consumidor; e nada de essencial para o ser humano enquanto este se resume à sua dimensão plástica, ao reflexo do espelho. Contudo, nem o mais habilidoso entre nós é capaz de permanecer, indiferente, nessa dimensão. As insuficiências deste mundo oco surgem por este ser um mundo arrancado dos seus próprios termos, a vida – amputada da natureza que a compõe, que a significa, que a incorpora e integra no equilíbrio dos ciclos – que, ainda assim, despojada, amestrada no isolamento e condicionada desde o nascimento, deseja profundamente pertencer. Porém, não se pertence ao que se quer dominar – a pertença e o domínio são esferas heterogéneas, que se governam em linguagens diferentes. O que as humanidades ensinam, na essência, é a estender os braços ao que não se pode ter, ao que o domínio desconhece; é um abraçar da finitude, das limitações intrínsecas ao nosso existir, como parte fundamental de quem somos. É um aprender a viver numa composição que, apesar de não se resumir a isso, inclui a morte, mas não como catástrofe, contraste, raiz da violência; como elo, em vez, vínculo comum de medos e esperanças; dimensão primordial que nos reúne e instrui. É aprender a compreender quem somos, para além de qualquer explicação do que somos. Expressões do mundo humano, da vivência efémera originária.

“Assim falou; e em Aquiles provocou o desejo de chorar pelo pai.
Tocando-lhe com a mão, afastou calmamente o ancião.
E ambos se recordavam: um deles de Heitor matador de homens
e chorava amargamente, rojando-se aos pés de Aquiles;
porém Aquiles chorava pelo pai, mas também, por outro lado,
por Pátroclo. O som do seu pranto encheu toda a casa.”

Homero – Ilíada
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